Depois de quase três meses em Paris (e/ou arredores), Londres é um choque. Eu poderia falar aqui das food and wine 24h abertas em qualquer esquina, mesmo afastadas do centro, enquanto que em Paris é preciso caminhar bastante pra achar um mercadinho que seja aberto em um domingo; de boas refeições a 5 ou 6 libras, contra os 6 a 10 euros por uma comidinha meia-boca parisiense; dos pints de cerveja por menos de 3 libras em pubs movimentados e centrais, quando só lugares escondidos em Paris vendem as mesmas cervejas por menos de 6 euros; de ser possível entrar em algum lugar, sentar onde quiser e ser bem atendido mesmo que seja só para tomar uma coca-cola, ao invés de receber um olhar de profundo desprezo por ocupar uma mesa qualquer em um bistrô vazio para comer; do poder sair a qualquer momento e encontrar ótimos lugares para se conhecer ou simplesmente passar um tempo, em vez de um leque limitadíssimo de opções dependendo do dia e horário. Todos são ótimos exemplos, mas o que choca de verdade são as pessoas.
É fácil perceber a diferença cultural entre as duas cidades. Há uma forte questão de respeito ao espaço individual em Londres, questão que é ostensivamente ignorada pelos franceses. O exemplo clássico talvez seja o lugar comum do francês ocupando sozinho, bunda-bolsa-perna-perna, quatro bancos de um metrô cheio, coisa que se enxerga fácil em quaisquer dois dias de metrô parisiense. O londrino senta em seu banco, mochila no colo, lendo seu jornal, mesmo com dois ou três bancos vazios ao redor. O metrô londrino, aliás, tem cartazes pedindo que os passageiros não ocupem mais de um banco, não comam nada com cheiro forte e não falem alto ao celular. Do mesmo modo, já é uma segunda natureza o acotovelar-e-ser-acotovelado para entrar e sair do trem em Paris, mesmo que as pessoas saindo e entrando não sejam tão numerosas. Esse comportamento é uma exceção rara em Londres, onde os passageiros de fora abrem espaço e esperam que todos saiam antes de começar a entrar, mesmo em trens lotados e horários de pico.
Mais de uma vez em Londres vi o caso de duas escadas, uma para descer e outra para subir, separadas por um mero corrimão, com quase ninguém deixando de seguir essa ordem, não importando se uma das escadas está entupida e a outra vazia. Filas são respeitadas e ordeiras. Casos de tumulto, como uma linha de trem bloqueada, são contornadas por vários funcionários orientando os passageiros e avisos escritos em quadros-brancos explicando quais os melhores desvios para quais destinos. A sinalização é farta e clara. Os atendentes de lojas, bares e serviços públicos são, em sua grande maioria, educados e extremamente solícitos. Os exemplos são fartos, e todos se chocam de frente contra o dia-a-dia parisiense.
Qualquer curso de línguas ensinará que é preciso ser extremamente educado em francês. Antes de mais nada aprende-se a gastar saliva com bonjour, excusez-moi, s'il vous plaît, pardon, au revoir. Mas é uma educação protocolar e vazia. É óbvio que se precisa pedir licença ao parisiense padrão parado na saída da escada rolante enquanto os outros tentam passar por ele, coisa que seria totalmente desnecessária se a educação fosse utilizada na prática e o tal parisiense simplesmente não estivesse parado no meio do caminho. O problema é que, enquanto o francês tem o olhar reprobatório a quem não pede desculpas, o inglês reserva o mesmo olhar a quem está agindo de um modo grosseiro, o que faz toda a diferença. A placa londrina não só diz que você vai ganhar uma multa por não limpar o cocô do cachorro na calçada, ela também diz que quem faz isso é mal-educado, sujo e não tem consideração com os outros.
Talvez o pior aqui não seja tanto o comportamento, e sim a sua rotina. O deixar de perceber a falta de modos generalizada e cultural e pensar que isso não existe, que tanto faz. Até dar de cara com um exemplo oposto, de como as coisas podem ser organizadas e agradáveis e de como isso parece fácil e natural se as pessoas estão realmente tentando.